Sexta, 12 de Julho de 2024

O papel do articulador no processo de transferência de tecnologia

O articulador é, em essência, o profissional que faz a ponte entre o inventor e o licenciado.

24/03/2024 às 15h02 Atualizada em 24/03/2024 às 15h06
Por: Anderson Soares
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Brasil precisa capacitar e reconhecer o articulador de transferência de tecnologia
Brasil precisa capacitar e reconhecer o articulador de transferência de tecnologia

Compreender e conduzir o estreito relacionamento entre o licenciante (inventor, pesquisador) e o licenciado (empresa, indústria, investidor) é crucial para o sucesso da transferência de tecnologia e os acordos de licenciamento de Inovação. Este processo é multifacetado, e normalmente é bastante complexo, o que acentua a importância de um articulador neste cenário. Não podemos deixar de citar que esse processo de negociação também envolve as universidades e muitas vezes os governos. O que torna mais complexo ainda.

O articulador é, em essência, uma figura que faz a ponte entre o inventor e o licenciado, promovendo negociações e facilitando a comunicação entre as partes. Ele tem um papel fundamental na garantia de que as necessidades e expectativas de ambas as partes sejam consideradas e atendidas.

Existem vários fatores que tornam a figura do articulador essencial neste processo. Em primeiro lugar, ele precisa ter uma visão comercial amplamente estabelecida, além de experiência e habilidades em negociação, persuasão. Técnicas de vendas para a área de tecnologia são muito bem vindas. Habilidades de oratória e apresentações em público também são características importantes. Mas não menos importante há a questão do conhecimento especializado em inovação, empreendedorismo, aspectos jurídicos de patenteabilidade, acordos de licenciamento, propriedade intelectual, relações de sociedade e investimentos, entre outros.

Em segundo lugar, o articulador deve ser a figura responsável por encontrar as oportunidades de projetos de pesquisa científica em andamento, antes mesmo dessas chegarem às prateleiras. A intervenção durante o processo de pesquisa com acordos já estabelecidos é que vai ditar o quão eficaz ao mercado será a solução de patente depositada.

O articulador deve estar bem posicionado para entender as nuances dos acordos de licenciamento e da transferência de tecnologia, assim como as implicações legais e comerciais destes processos.

Em terceiro lugar, o articulador pode desempenhar um papel vital na resolução de desacordos ou mal-entendidos que possam surgir entre o inventor e o licenciado. Ele pode ser uma voz neutra e objetiva que pode facilitar a resolução de conflitos de maneira justa e equitativa. O articulador deve saber estabelecer bem as relações de ganha ganha.

Além disso, o articulador pode ajudar a garantir que os interesses do pesquisador sejam adequadamente protegidos, ao mesmo tempo em que assegura que o licenciado tenha a oportunidade de aproveitar ao máximo a tecnologia ou invenção licenciada.

Também é importante ressaltar que a interação entre o inventor e o licenciado pode variar consideravelmente. Por exemplo, trabalhar com uma nova startup pode requerer mais tempo e envolvimento do inventor, em comparação com um acordo de licenciamento com uma empresa estabelecida. O papel do articulador, neste caso, pode ser ainda mais crítico, pois ele pode ajudar a orientar o inventor através do processo, assegurando que ele esteja ciente de todas as implicações e responsabilidades.

O Brasil é um país rico em commodities, possui ampla extensão territorial e diversidade de contextos, está entre as 10 maiores economias do mundo, porém não consegue avançar no contexto da inovação. Nesse aspecto de transferir conhecimento e tecnologia para o mercado, puxando dados da Unicamp, existem 1.276 patentes vigentes, mas somente converteu 197 acordos de licenciamento. Isso significa 15%. A média nacional não chega a 10%. As pesquisas chegam a fase de depósito de patentes sem qualquer valor para o mercado. Não existe articulação durante a elaboração do projeto e é muito mais difícil essa articulação acontecer depois do projeto chegar à vitrine da universidade.

A figura do articulador é de extrema importância no processo de negociação para licenciamento. Ele pode facilitar a comunicação, promover a compreensão mútua e ajudar a garantir que o processo seja conduzido de maneira justa e transparente. Independentemente do cenário, ter um articulador envolvido no processo de licenciamento é quase obrigatório para uma transferência de tecnologia mais suave e mais bem-sucedida.

A diferença entre abordagens e discursos que são aplicados nas conversas com a academia, indústria, empreendedores, investidores e governos, durante um processo de licenciamento e transferência de tecnologia, indica que haja um interlocutor nesse processo - e um hábil articulador é essa figura. Uma figura que falta o Brasil explorar, treinar e capacitar melhor.

 

Este artigo foi publicado originalmente no perfil do autor no LinkedIn.

 

* Michael Anderson Rodrigues Soares é Relações Institucionais e Governamentais (RIG) na Fundação Fadex; empreendedor há mais de 20 anos como fundador de diversos negócios digitais com clientes em todo o Brasil e outros Países; foi gestor de projetos para negócios inovadores do Sebrae durante 3 anos; atualmente cursando Mestrado em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para Inovação (PROFNIT) pela Universidade Federal do Piauí; e uma Pós-graduação em Ciência de Dados e Inteligência Articial pela PUC-RS.

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